No dia em que se comemora a Autonomia, nada melhor do que falar do arKipélago que, há trinta e três anos, conseguiu ver consagrada em letra de Lei uma ambição centenária.
Desde então, muita coisa mudou nos Açores. Muito mudaram os açorianos.
Ao mesmo tempo que a Autonomia ia nascendo, a televisão, nos Açores, também começava a dar os primeiros passos. Muitas vezes ignorada e tantas vezes mal-amada, a RTP-Açores desempenhou o papel aglutinador que possibilitou o nascimento de uma identidade regional, o tal Povo Açoriano, em detrimento da condição de ilha isolada que, salvo raras excepções, era a situação comum e de vida da grande maioria dos habitantes do arquipélago.
A RTP-Açores, a nova tecnologia da época, uniu os Açores. Deu a conhecer os Açores a cada um dos açorianos. Permitiu ver as pessoas das outras ilhas e ouvir as diferentes pronúncias que, de Santa Maria ao Corvo, fazem destas ilhas, únicas.
Com o passar dos anos, as novas tecnologias de então deixaram de ser novidade e foram aparecendo outras. Ao longo destas três décadas muitas inovações morreram pouco tempo depois, mantendo-se a televisão como elo fundamental e poderoso, saibamos nós utilizá-la.
Contudo, o poder da televisão começa a ter forte concorrência. A internet com todas as suas ferramentas (blogues, hi5, facebook, twitter, messenger,…) tem-se revelado poderosíssima em alguns países do mundo. Todos sabemos o papel que desempenhou nas eleições americanas e a forma como difundiu informação nas eleições francesas.
Todavia, os Açores estão muito longe dessa realidade. Esta ainda não é uma ferramenta de referência na Região, mesmo com a crescente perda de terreno por parte da televisão regional como órgão informativo. Não descurando a importância dos meios do espaço virtual, a informação regional e local dissipada via net funciona em circuito fechado. Quem comenta é quem opina e pouco mais. Por exemplo, não existe ligação entre os blogues e os meios de comunicação tradicionais. Salvo raras excepções, como é o caso do Expresso das Nove, os jornais, a rádio e a própria televisão ignoram a informação por eles veiculados e as opiniões aí emitidas. Receio de concorrência? Não há razão para isso. Os blogues não fazem jornalismo, apenas emitem opinião.
Este afastamento talvez se prenda com a dificuldade em se abrirem os painéis de debate e de comentadores a pessoas que não as habituais, que não aquelas que já todos sabemos o que vão dizer. Aliás, é recorrente por esta terra amarrarmo-nos demasiado ao passado e, quando abrimos ao futuro, procuramos controlá-lo, condicioná-lo ou manipulá-lo. Bem vistas as coisas, a grande maioria das figuras públicas açorianas e colunistas dos nossos jornais diários não têm blogue e, os que o têm, raramente participam regularmente na blogosfera.
As novas tecnologias deverão ser aproveitadas para desenvolvermos uma nova fase na construção autonómica. Pelo fácil acesso, pela fácil utilização, pela rapidez que imprime aos contactos e à troca de ideias, as novas ferramentas deverão ser encaradas como eixos estruturantes e parceiras no aprofundamento da autonomia como democracia participada.
Veja-se o que fez a candidata do PSD ao Parlamento Europeu. Um pequeno gesto que nos permitiu perceber que é fácil termos todos os açorianos, independentemente da ilha onde residem, a comunicar em tempo real quase presencial.
O que seria a nossa democracia se os responsáveis políticos tivessem em permanente contacto com os cidadãos? Que respondessem às suas questões em tempo real? Que divulgassem e discutissem as suas ideias e propostas publicamente num escrutínio permanente da sociedade civil? Ficaríamos a conhecê-los melhor e acompanharíamos melhor o seu trabalho. O que seria a nossa Autonomia se todos os açorianos pudessem intervir na coisa pública sem ser exclusivamente através do voto?
O que seria a Autonomia? Melhor, certamente melhor! Não é o desígnio da Democracia? Aproveitemos e abusemos desta ferramenta.
