A existência de um parque arqueológico subaquático na baía de Angra constitui um factor de diferenciação que faz da nossa cidade património um lugar único no contexto regional, nacional e, porque não, internacional.
Aliás, desenganem-se aqueles que fazem do património arquitectónico construído a razão de ser do título atribuído pela UNESCO. Os palácios, solares e igrejas, não descurando o seu valor estético e cultural, são o que menos importa nesta classificação. A importância geográfica como porto de escala e de abrigo entre o Velho Continente e o Novo Mundo, entre a Europa e a costa de África e entre Lisboa e as riquezas do Oriente, essa sim, é a verdadeira razão de ser do honroso e exclusivo título atribuído a Angra pela comunidade internacional materializado nas embarcações que jazem no fundo da nossa pequena angra que deu nome à primeira cidade dos Açores e à única capital que o arquipélago alguma vez teve.
Querer destruir tudo isto é, no mínimo, irresponsável. Querer retirar a Angra aquilo que a faz diferente para poder torná-la igual a todas as outras cidades e vilas sem passado é, no mínimo, pouco inteligente.
A Terceira tem, neste momento, condições para fazer coexistir as duas estruturas: o cais de cruzeiros e o parque arqueológico. Angra tem as suas condições únicas que a história e os angrenses lhe deram e de que nos orgulhamos e alimentamos o nosso ego sem que, contudo, façamos disso factor potenciador de diferenciação. Preferimos, antes, copiar e ser igual aos outros a todo o custo porque o que é de fora é sempre melhor.
Não poderíamos cair em maior erro. Somos diferentes e devemos continuar a sê-lo.
A decisão de construção de um cais de cruzeiros em Angra é tudo menos preocupação com a cidade e a ilha. Todos nos recordamos o contexto em que tal anúncio foi feito e como foi feito. Havia que dar algum alento à candidatura socialista à câmara de Angra. O cais de cruzeiros é, por isso, arma de arremesso político sem estudos que a sustentem e sem discussão pública por falta de abertura e de humildade de quem a usou.
Não fosse a candidatura de Berto Cabral à Câmara da Praia, este assunto nunca teria vindo a público nos moldes que veio. Só agora, depois das eleições, as páginas de jornal, a televisão e a rádio se enchem com a problemática do cais de cruzeiros revelando a forma distraída e, porque não dizê-lo, cúmplice com que acompanharam o último acto eleitoral. Diga-se a propósito que, contrariamente ao que tem vindo a público, a Assembleia Municipal da Praia da Vitória, por iniciativa do PSD, tem discutido calorosamente esta questão que tem servido para evidenciar quem é a favor e quem é contra a construção de um cais de cruzeiros, neste caso concreto, na Praia da Vitória. Escusado será dizer que o PSD é a favor e o PS prefere a sua construção em Angra…
Em todo o caso, seria importante fazer outra discussão paralela (ou até na mesma). Porque não fazer da Terceira a placa giratória de toda a circulação marítima no grupo central em vez de embarcarmos em aventuras de novo-riquismo com dinheiro dos outros? Porque não fazer das infra-estruturas portuárias da Praia, com intervenção paisagística na envolvente, um verdadeiro “cais de cruzeiros inter-ilhas”?
Com trabalho e vontade política, sem bairrismos e favores partidários, é possível, na Terceira, coexistirem estas duas importantes infra-estruturas: um parque arqueológico subaquático (que tem de ser potencializado) e um cais de cruzeiros, caso se justifique.
Se a construção deste último se justifica, única e simplesmente, por critérios provincianos estritamente políticos ao estilo de “se Ponta Delgada tem, nós também temos que ter”, nós, terceirenses, deveríamos antes dizer “se Ponta Delgada não tem, nós não temos que deixar de ter”.

Em Abril de 2006 visitei Berlim. O muro já havia sido derrubado há muito tempo, mas as marcas desse passado de cidade dividida permaneciam presentes.
Berlim é a cidade mártir do século XX. Foi a II Guerra Mundial, o Holocausto, Hitler, o Muro e a esperança renascida a partir da sua queda.
Em 2006, Félix Rodrigues (“




Anna Tokarska